O conselho «nunca atendas números desconhecidos» é bem-intencionado, mas na nossa opinião falha o alvo: faz-te perder chamadas legítimas e dá a ideia errada de que o perigo está no gesto de atender. Não está. O perigo começa no segundo seguinte, no que dizes e no que fazes. A regra que protege mesmo é outra: podes atender, mas não entregas nada.
O que atender não faz
Atender não instala nada no telemóvel, não dá acesso às tuas contas e não te cobra dinheiro. Receber uma chamada é gratuito em Portugal e também em roaming na União Europeia. Fora da UE, receber chamadas pode ter custo, conforme o tarifário. A única consequência real de atender é informar o sistema do outro lado de que o teu número existe e tem alguém a responder, o que tende a trazer mais chamadas.
O «sim» gravado e a tua voz
Circula há anos o aviso de que basta dizer «sim» para te subscreverem serviços. O risco existe sobretudo nas vendas por telefone de energia e telecomunicações, onde uma resposta ambígua gravada pode ser apresentada como aceitação. Mas um contrato feito assim pode ser anulado nos 14 dias de livre resolução, como explicamos no artigo sobre o golpe da mudança de comercializador de energia. Mais recente é o uso de gravações de voz para imitar pessoas com inteligência artificial. Para isso, bastam poucos segundos de áudio, que muitas vezes já estão publicados nas redes sociais. O tema é tratado em vishing e clonagem de voz com IA. Não é motivo para pânico, mas é um bom motivo para não conversares com gravações.
Onde está o perigo verdadeiro
- Códigos recebidos por SMS: quem tem o código entra na conta ou autoriza o pagamento. Nenhuma entidade legítima te pede para o ler ao telefone. Vê porquê em nunca partilhes o código de confirmação.
- Dados pessoais: NIF, IBAN, morada ou número do cartão de cidadão servem para burlas seguintes, mesmo que a chamada pareça inofensiva.
- Teclas e chamadas de volta: «prima 1» ou «ligue para este número» podem encaminhar-te para linhas de valor acrescentado ou confirmar que estás disponível.
- Aplicações: quem te pede para instalar um programa de acesso remoto quer controlar o teu telemóvel ou computador.
A regra prática
Se atenderes, deixa o outro lado falar primeiro e não confirmes o teu nome. Responde a «fala o senhor…?» com «quem deseja?». Se disserem que são do banco, da operadora ou de uma entidade pública, desliga e liga tu para o número oficial, porque o número que aparece no ecrã pode ser falsificado. É esse o conselho que a PSP repete nos seus alertas. Se a chamada for uma gravação, desliga sem carregar em nada.
E se o telemóvel já te avisa antes de atenderes, lê o que significa esse aviso em o que significa «spam suspeita» numa chamada. Um aviso ajuda a decidir, mas não substitui a regra de não entregar nada.