O telemóvel toca e no ecrã aparece o nome e o número do teu banco. Atendes sem desconfiar -- afinal, é o banco a ligar. O problema é que aquele número pode ter sido falsificado, e quem está do outro lado nunca trabalhou num banco.
O que é o spoofing
Spoofing é o ato de falsificar a informação que aparece no ecrã de quem recebe uma chamada ou um SMS. Em vez do número real de quem liga, o destinatário vê outro qualquer -- escolhido pelo burlão. Pode ser o número de um banco, de uma operadora, de um organismo público ou simplesmente um número português aleatório, para parecer mais fiável do que um número estrangeiro.
A técnica existe porque a rede telefónica foi desenhada numa altura em que ninguém imaginava que a identificação de chamada seria usada para enganar pessoas. O número apresentado é, em muitos casos, uma informação que o sistema de origem declara -- e que pode mentir.
Porque os burlões usam o spoofing
A resposta é pura psicologia. Atendes de forma diferente um número desconhecido e um número que reconheces. Se no ecrã estiver "Banco" ou um número que já tens guardado, baixas a guarda. O burlão ganha à partida aquilo que mais precisa: a tua confiança.
A seguir entra o guião do costume. Dizem-te que houve um movimento suspeito na conta, que precisas de "confirmar a tua identidade" ou de "transferir o dinheiro para uma conta segura". Tudo com pressão de tempo, para não te deixarem pensar. É a parte da chamada que reconheces no guia sobre como verificar um número desconhecido: o padrão é sempre o mesmo, mude o número que mudar.
Spoofing também acontece por SMS
A falsificação não se limita à voz. O nome do remetente de um SMS também pode ser forjado. É assim que uma mensagem fraudulenta consegue cair exatamente na mesma conversa onde tens os SMS verdadeiros do teu banco ou da transportadora. Vês o histórico, parece tudo legítimo, e a mensagem nova pede-te para abrires uma ligação.
Esse cruzamento entre spoofing e mensagens falsas tem nome próprio: smishing. Se recebes muitos SMS suspeitos, vê em detalhe como os identificar no artigo sobre SMS falsos e smishing.
Sinais de que a chamada é falsa
Como o número não é de confiança, tens de te apoiar no conteúdo da conversa. Há pormenores que denunciam quase sempre uma chamada de spoofing:
- pedem-te dados que o banco já tem ou que nunca pediria: PIN, palavra-passe completa, código SMS;
- insistem para não desligares e para resolver tudo "agora";
- pedem para instalares uma aplicação de acesso remoto ao telemóvel;
- querem que transfiras dinheiro para uma "conta segura" ou "conta de proteção".
Nenhum banco verdadeiro faz isto. Um banco nunca te pede para moveres dinheiro por telefone nem para revelares códigos. Se a conversa caminha para aí, estás a falar com um burlão, por muito que o ecrã diga o contrário.
O que fazer quando suspeitas
A regra de ouro é simples: desliga e liga tu. Não uses o botão de "devolver chamada", porque isso pode levar-te de volta ao burlão ou a uma linha paga. Procura o número oficial no verso do teu cartão bancário ou no site da entidade e liga a partir daí.
Entre desligar e voltar a ligar, deixa passar pelo menos um minuto. Algumas burlas mantêm a linha aberta mesmo depois de pareceres ter desligado, e quando marcas o número do banco continuas a falar com o mesmo burlão. Se possível, usa outro telefone para confirmar.
Não consegues impedir que alguém falsifique um número, mas controlas o passo seguinte. Se já partilhaste dados ou fizeste uma transferência, age depressa -- o artigo sobre o que fazer depois de dar dados a um burlão explica a ordem certa das ações.
Denunciar e travar o problema
O spoofing é difícil de eliminar porque a falha está na própria arquitetura da rede, e a ANACOM, enquanto regulador das comunicações, tem vindo a acompanhar o tema. Ainda assim, denunciar tem valor: ajuda a mapear as campanhas em curso e a alertar outras pessoas.
Se foste alvo de uma tentativa de burla, podes apresentar queixa à Polícia Judiciária e reportar o caso ao Centro Nacional de Cibersegurança. Deixar uma opinião numa base de dados de números, mesmo sabendo que o número era falso, também serve -- avisa quem receber a próxima chamada com aquela mesma máscara. A falsificação enganou-te uma vez; o objetivo é que não engane mais ninguém.
Habitua o teu cérebro a desconfiar do ecrã
A mudança mais útil que podes fazer é mental. Durante anos, o número no ecrã funcionou como um cartão de identidade -- se aparecia o banco, era o banco. O spoofing partiu essa regra, e a tua cabeça precisa de a atualizar. Trata a identificação de chamada como aquilo que ela passou a ser: uma sugestão, não uma prova.
Isto não quer dizer viver em alerta permanente. Quer dizer aplicar um teste simples sempre que uma chamada te pede uma ação -- dar um dado, mover dinheiro, instalar algo. Nesse momento, o número que vês deixa de contar. O que conta é confirmares pela via oficial, com calma, antes de fazeres seja o que for. Se interiorizares só esse hábito, o spoofing perde quase todo o seu poder sobre ti.