Há dez dias bateste com o carro num cruzamento, nada de grave, mas chamaste a GNR e participaste o sinistro ao seguro. Esta semana o telemóvel não para: números fixos estranhos, vozes simpáticas que já sabem que tiveste um acidente e te garantem "uma indemnização a que tens direito". Ninguém te pediu autorização para isto. Como é que sabem?

De onde vem o teu número depois de um acidente

A pergunta certa não é "como sabem", mas "por onde passou a informação". Depois de um acidente, os teus dados circulam por várias mãos legítimas: a seguradora, o mediador, a oficina, talvez uma clínica onde fizeste uma radiografia, a empresa de reboque. Cada um destes intervenientes guarda o teu nome, o teu contacto e a descrição do sinistro. Basta um elo da cadeia partilhar ou vender essa lista para o teu número aterrar numa empresa de angariação de indemnizações.

Há ainda os bastidores menos visíveis. Algumas empresas de "gestão de sinistros" ou de serviços jurídicos compram bases de dados de contactos, cruzam registos e contratam call centers para ligar em massa a quem teve um acidente recente. Outras vezes a fuga vem de um trabalhador que copia listas e as vende por fora. Em qualquer dos casos, há aqui um problema de proteção de dados, porque ninguém te pediu consentimento para usar a tua informação para este fim.

Isto encaixa numa lógica que já conheces das chamadas comerciais em geral: o teu número é tratado como mercadoria. A diferença é que aqui ele vem acompanhado de um detalhe sensível -- o facto de teres estado num acidente -- que torna o discurso muito mais convincente.

O que estas chamadas querem mesmo

Nem todas as empresas que ligam são iguais, e vale a pena distinguir. Algumas são intermediários reais que tratam de processos de indemnização a troco de uma comissão sobre o valor que conseguires receber. Outras estão na fronteira do esquema, a usar a pressão e a promessa de dinheiro fácil para te apanhar dados ou para te fazer assinar um contrato que mais tarde te corta uma fatia grande da indemnização.

O guião costuma seguir um padrão reconhecível:

  • Já sabem que tiveste um acidente e usam esse facto para parecerem informados e oficiais.
  • Falam num valor de indemnização concreto e apelativo, antes sequer de conhecerem o teu caso.
  • Metem pressa -- "há prazos", "se não tratar já, perde o direito" -- para não te deixarem pensar.
  • Pedem-te dados do sinistro, da apólice, do documento de identificação ou do IBAN "para adiantar o processo".

Uma indemnização a que tenhas mesmo direito não desaparece porque não atendeste uma chamada não solicitada. Os prazos legais existem, mas tratam-se com a tua seguradora, com um advogado da tua escolha ou através dos canais próprios, não com uma voz anónima ao telefone que te apanhou de surpresa.

Os teus direitos sobre estes contactos

O ponto de partida é o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados, o RGPD, complementado em Portugal pela Lei 58/2019. A informação sobre o teu acidente e o teu contacto são dados pessoais, e usá-los para te ligar a oferecer serviços exige uma base legal e, em regra, o teu consentimento. Tu tens direito a saber de onde a empresa obteve o teu número, a opor-te ao tratamento para marketing e a pedir o apagamento dos teus dados.

Na prática, durante a chamada, podes e deves exigir três coisas: a identificação da empresa, a origem do teu contacto e a remoção imediata dos teus dados das listas. Diz de forma clara que não autorizas o contacto comercial e que queres que apaguem o teu número. Estás a exercer o direito de oposição e o direito ao apagamento, ambos previstos no RGPD.

Se a empresa se recusar a dizer de onde tirou o teu número, ou continuar a ligar depois de teres pedido para parar, deixaste de ter um simples incómodo e passaste a ter um incumprimento. Esse uso indevido dos teus dados pode ser apresentado à CNPD, a autoridade nacional de proteção de dados. Tratando-se de práticas comerciais agressivas de uma empresa, a Direção-Geral do Consumidor é a entidade de referência para reclamar.

Como travar as chamadas, passo a passo

Reagir bem no momento poupa-te semanas de telefonemas. Quando uma destas chamadas chega, segue uma sequência curta:

  1. Não confirmes nada do acidente. Não digas valores, datas, número da apólice nem dados pessoais. Quanto menos confirmas, menos munição lhes dás.
  2. Pergunta de onde tiraram o teu número. Uma empresa séria responde; um esquema gagueja ou desliga.
  3. Recusa por escrito mental. Diz: "Não autorizo este contacto, retirem e apaguem o meu número." Anota a data, a hora e o nome da empresa.
  4. Desliga sem culpa se insistirem, meterem pressa ou pedirem dados sensíveis.
  5. Trata a indemnização pelos canais certos -- a tua seguradora e, se for caso disso, um advogado escolhido por ti.

Para reduzir o ruído enquanto os pedidos de remoção fazem efeito, podes inscrever-te na lista de oposição ao marketing telefónico e silenciar de forma geral quem não conheces. O guia sobre como parar as chamadas de telemarketing reúne os teus direitos e as ferramentas para baixar o volume destas chamadas.

Já dei dados ou assinei alguma coisa

Se chegaste a partilhar o número da apólice, dados do cartão de cidadão ou o IBAN, ou se assinaste por telefone um qualquer "mandato" sem perceber bem o que era, age sem demora. Avisa a tua seguradora de que andam terceiros a usar a informação do teu sinistro, revê o que assinaste e percebe se há um direito de arrependimento aplicável. Guarda tudo -- números, datas, mensagens -- porque é a tua prova. O procedimento completo para limitar danos depois de entregares informação a quem não devias está descrito no artigo sobre o que fazer depois de dar dados a um burlão.

Perguntas frequentes

É legal uma empresa ligar-me por causa do meu acidente?

Depende de como obteve os teus dados e se tem base legal para o contacto comercial. Usar informação sobre o teu sinistro sem o teu consentimento, para te oferecer serviços, é problemático à luz do RGPD. Tens direito a saber a origem do número e a opor-te.

Se não atender, perco a indemnização a que tenho direito?

Não. O direito a uma indemnização legítima não depende de atenderes uma chamada não solicitada. Trata o processo com a tua seguradora e, se quiseres apoio, com um advogado escolhido por ti, dentro dos prazos legais.

Como é que eles souberam que tive um acidente?

Os teus dados passam por seguradora, mediador, oficina, reboque ou clínica. Basta um destes elos partilhar ou vender a lista para o contacto chegar a empresas de angariação. Saberem do acidente não significa que ajam de forma legal.

A quem me posso queixar?

Se o problema for o uso indevido dos teus dados, queixa-te à CNPD. Se forem práticas comerciais agressivas, à Direção-Geral do Consumidor. Se a chamada for, na verdade, uma tentativa de burla, o caminho é a queixa à polícia.

Em resumo

As chamadas sobre indemnizações depois de um acidente vivem de um detalhe sensível que não devia andar a circular: o teu número associado ao teu sinistro. Não confirmes nada, exige saber de onde tiraram o contacto, pede a remoção dos dados e trata a indemnização pelos canais que tu escolheres. O direito que tenhas não está nessa chamada -- está no teu processo, à tua espera.